Bright as Silver, White as Snow II
A handful of clay from a Chinese hillside carries a promise: that mixed with the right materials, it might survive the fire of the kiln, and fuse into porcelain - translucent, luminous, white.
Edmund de Waal. (2016). The white road.
Bright as Silver, White as Snow II convida-nos a sentir a transitoriedade da matéria na porcelana. O espectador encontra na perpétua fluidez, o movimento de energias e de gestos ausentes que se desconstroem e se recriam em experiências e memórias da viagem à cidade natal da porcelana, Jingdezhen.
Nesta exposição, Graça Pereira Coutinho, Beatriz Horta Correia e Susana Piteira realçam e interligam vivências e linguagens, cujos signos e objetos se movimentam e se desconstroem na forma e na matéria. Numa viagem ao mundo do “ouro branco”, a porcelana, transparece-se como translúcida e luminosa, promovendo nas artistas um reviver de energias e da história do lugar, no qual nascem das fábulas dos grandes fornos e fornalhas Imperiais delicados objetos e esculturas em porcelana, que se manifestam aparentemente frágeis e luminosos com apontamentos de cor e de luz.
Contemplamos nas diferentes linguagens, formas modeladas pela sua plasticidade, que se transfiguram no informe em voláteis gestos repetitivos, dos quais testemunhamos entre as dobras da matéria e a memória transcultural da China a Portugal. Esta memória transcreve-se como múltiplos signos linguísticos e objetos delineados pela plasticidade da matéria.
Graça Pereira Coutinho, Beatriz Horta Correia e Susana Piteira criam a partir do “ouro branco”, a porcelana, diários, paisagens, flores, signos-arqueológicos e linguísticos desprendidos de vocábulos estéticos, um reviver de Ur, a origem da porcelana. As artistas evocam, assim, a essência da porcelana, bright as silver, white as snow.
Ao deambular pelo espaço da exposição, percorremos três linguagens, três vozes no feminino, as viajantes do mundo da porcelana. Revivemos as suas experiências transculturais através do documentário/vídeo de Miguel Gaspar. Da viagem, caminhamos pela China; dos diálogos revivemos experiências e o sentir da matéria; através das trocas de conversas, olhamos para o Oriente. Contemplamos o seu quotidiano, o mercado e o mundo da porcelana. A pura criação de fazer. Através do olhar de Miguel Gaspar, temos o testemunho da passagem pelo mundo da porcelana na terra natal Jingdezhen. As artistas expressam ideias e vivências, produzem, sentem e criam arte, através da pura sensação.
Viajamos através da experiência estética de Graça Pereira Coutinho. O espectador contempla um vocábulo estético da origem de Ur, uma linguagem arqueológica desenhada por objetos-signos cujo reflexo nos transpõe para a ausência e o silêncio, uma escrita sem voz, um pensamento por imagens. Fruímos, assim, através da instalação, a memória-signo em Sem Título, como se fosse um diário de objetos-signos.
Somos um espectador sem literatura, a artista expõe uma escrita-signo, cujo vazio e silêncio ecoam como “liberdade e recordação”. (Barthes [1997]. Grau Zero da Escrita). A linguagem-signo criada por Graça Pereira Coutinho manifesta-se como um registo da viagem pelo mundo. Uma procura da essência. A artista escreve uma grafia que não ressoa, espelha como uma miragem os objetos arqueológicos no invisível, uma outra dimensão quase não percetível pela razão, mas sim vislumbrada pelos sentidos.
Graça Pereira Coutinho revive um tempo mítico da porcelana, através do gesto, da linguagem e do ritual, evoca, porventura, outras vidas e outras civilizações. A artista alude a costumes e artefactos arqueológicos, como se fosse uma recolectora, que, por sua vez, transforma os objetos em signos-linguísticos os quais fazem parte do seu diário. Cada signo, um dia, cada artefacto, um momento, num diálogo com o presente, o passado e o futuro.
Ao olhar para o chão, o espectador descobre o interior do ser. Através da linguagem, mergulhamos na essência, uma viagem pela humanidade, revivemos ancestrais hábitos, costumes e tradições. O espectador reencontra através do gesto e da cultura, outros povos, a linguagem universal que perdura no silêncio entre as não-palavras. Graça Pereira Coutinho transforma-se na recolectora de vestígios da humanidade e da natureza. Em cada gesto, seleciona fragmentos de porcelana e vestígios de barro, expressando pinturas gestuais que se transcrevem em paisagens naturais ou imagens abstratas do pensamento, ou, por assim dizer, um mapa do quotidiano.
Em Bules, Graça Pereira Coutinho reinventa o ritual, lembrando a cerimónia do chá, o chá de Gongfu - o caminho do chá - onde a natureza e o chá se encontram no lugar. O bule metamorfoseia-se no caminho de ruínas e de cidades, que contém não-narrativas ou fábulas desconcertantes do invisível. A artista dialoga com o gesto. O caminho do ritual desenlaça-se na recolha de objetos, projetando na escrita sem voz em signos indecifráveis. Uma linguagem do silêncio e do vazio que comunica com a natureza e expressa todas as coisas em si, estabelece a verdadeira conversação com o Universo. Nos Bules, evidenciam-se no gesto e no caminho do ritual a ruína do ser, desconstruindo o passado para dar lugar ao presente, o ato do momento.
Viajamos pelo Oriente numa união orgânica subtil da paisagem, deparamo-nos com a obra de Susana Piteira, que recria paisagens, formas ou sinogramas chineses, aludindo ao «monte» (shan) e ao «água» ou «rio» (shui), que observamos na série Shanshui. A porcelana transmuta-se em formas suaves como flores ao vento em campos, montanhas e rios chineses, modelando-as como matéria plástica de contrastes de claros-escuros.
Através da perceção, alude ao nome chinês da planta lírio, contemplamos a série Tiàoboa. Das energias do ambiente e do ser, nascem da flor delicadas peças em porcelana com variadíssimas cores, umas mais translúcidas, outras mais opacas, onde a luz incide na matéria e gera múltiplos reflexos e tonalidades de cores. E através delas, sente-se a visão orgânica mais brilhante da porcelana como bright as silver, vibram em pontos de cor e de luz. Transmutam-se flores em corpos – flores ou não – de lírios a rosas, do orgânico ao efémero, do feminino à sensualidade, do ser à matéria. Uma unidade na transitoriedade das coisas em si das quais observamos e sentimos nas séries Meu Tan e Jasmim e Outras Flores de Jardim.
É flor, ou não
É bruma, ou não
À meia-noite vem
De madrugada vai.
Chega, devaneio, vernal, efémero.
Parte, neblina, matinal, sem traço.
Bai Juyi (poeta chinês da Dinastia Tang). Flor ou Não
(Carvalho [2004]. Uma antologia de Poesia Chinesa, p. 221)
Continuamos a perambular, num encontro com o Oriente, em flores ou não, de diversos tamanhos e formatos. Na série Flores do Meu Jardim, recorda-nos os motivos florais ancestrais chineses e perceciona-se a delicadeza do material num gracioso gesto do motivo floral. Todavia, o material marcado pelo acidente faz-nos sentir a transitoriedade e o despojamento de todas as coisas. Vislumbramos kintsugi, cuja técnica japonesa repara a cerâmica com delicadas “costuras” de ouro, numa lembrança ao despojamento na filosofia ancestral japonesa – wabi-sabi.
Da técnica, sentimos também a paisagem. Dos livros, a viagem. Mergulhamos numa linguagem repleta de lugares incertos delineados por Beatriz Horta Correia. Através de Beatriz, o espectador sente por fragmentos-memórias ou caminhos de um viajante pela China. Evoca-nos ao monte Kao-Ling, cujo lugar nos remonta à extração do caulino, uma das matérias-primas com que se produz a porcelana. Contemplamos miniaturas em porcelana nas obras As Colinas do Monte Kao-Ling, como se as montanhas passassem a ser do tamanho da própria mão.
Beatriz Horta Correia joga com as dimensões espaciais, do grande se torna pequeno, do macro ao microcosmos, estabelecendo uma dicotomia entre o ser e a coisa, o ser e o outro, o ser e o cosmos. A multidimensionalidade na obra plástica ganha uma nova dimensão, a da mão. O corpo e a mão transformam a matéria, a plasticidade da porcelana altera-se e cria outras formas irregulares, como se fossem uma simbiose da matéria com o espaço. Uma expressão orgânica do ser na paisagem, onde surge na instalação Pedras Negras.
Na obra de Beatriz Horta Correia, a coisa em si e a matéria são em si paisagens. Percecionamos a experiência do sensível como uma memória desprendida dos indícios de vocábulos escritos. A escrita surge como livro, numa série de “livros-porcelana”, entre céladon, o vidrado verde, e o grafismo, desafia-nos, assim, à descontextualização da origem do livro, como nos apresenta na obra Livros de Céladon.
O livro sente-se e leva-nos a um passado remoto da antiguidade clássica, através da desconstrução da escrita através de pequenas mensagens ou breves notas em fragmentos de cerâmica – óstraco ou óstracon. O objeto transmuta-se no orgânico, efémero, desgastado pelo tempo. Através do gesto, as obras repousam no silêncio como sinais do tempo.
Todavia, o livro recupera a conexão do objeto e das matérias na dicotomia entre a escrita e o desenho, o grafismo e a paisagem. Do caderno-harmónio à paisagem, a artista cria uma expressão da matéria em si, no livro Oriente/Ocidente. Das palavras, emergem texturas e galhos, linhas ou montanhas. Da escrita, costuram-se silêncios e sensações na natureza. O gesto da mão deslinda o processo de fazer, o ato do momento funde-se com a abstração do pensamento. A paisagem com a escrita. O silêncio da palavra com a natureza.
Apreciamos o poema chinês Du Mu (Dinastia Tang), O Passeio à Montanha:
Mais longe, para cima, p’lo caminho pedregoso da montanha fria
Nuvens compactas, brancas, e surge uma casa.
Paro a carroça, contemplo o bosque tardio dos áceres
As folhas geladas: mais vermelhas que as flores de Março.
(Carvalho [2004]. Uma antologia de Poesia Chinesa, p. 245)
Joana Consiglieri
Lisboa
Exposição Bright as Silver, White as Snow II, 2023
Complexo Cultural da Levada de Tomar


